Ritos tibetanos

Reli recentemente o livro “A Fonte da Juventude”, de Peter Kelder. É um livro estranho. O autor conta a história de um certo Coronel Bradford, que teria vivido no Tibet no início do século XX e lá teria descoberto o segredo da Fonte da Juventude. Este segredo seriam os cinco exercícios tibetanos — ou ritos tibetanos, tais como praticados pelos lamas para melhorar a saúde e desenvolver a força física.

Os exercícios são simples. Embora sua origem seja desconhecida, percebe-se que eles são adaptações dos asanas do Hatha Yoga. De um modo geral, cada rito consiste num movimento que alterna dois asanas do Yoga, como explicarei a seguir.

Há muita discussão e controvérsia a respeito dos efeitos dos ritos tibetanos sobre a saúde. Como a maioria das tradições e práticas que vêm do Oriente, não há comprovação científica sobre os efeitos dos ritos; não se sabe exatamente até onde os ritos podem de fato retardar o envelhecimento ou fazê-lo retroceder, a despeito do que afirma o livro de Kelder. Há, no entanto, algumas evidências de que seus efeitos são positivos e que a prática diária traz muitos benefícios ao praticante.

Todos os ritos agem diretamente sobre a linha central do corpo, onde se concentram todos os orgãos e glândulas fundamentais para a saúde. Ao exercitá-los, fazemos com que funcionem melhor.

Em condições normais, nos movimentos que executamos no dia-a-dia e mesmo em exercícios usuais (na prática de esportes, em academias de ginástica), estes orgãos e glândulas não são estimulados. A maioria dos exercícios ocidentais age sobre músculos localizados, sobretudo nos braços e nas pernas. Os objetivos dos exercícios ocidentais são o desenvolvimento da força e o melhoramento estético; benefícios à saúde são conseqüência da prática desses exercícios, não sua razão de ser. Sabemos que há casos em que esses exercícios podem causar danos ao corpo.

Os ritos são para os orgãos e glândulas algo parecido com o que os exercícios ocidentais são para braços e pernas. Flexões e alongamentos ampliam a flexibilidade e a mobilidade de braços e pernas da mesma forma que os ritos tibetanos estimulam o bom funcionamento do aparelho digestivo e respiratório, por exemplo.

Kelder recorre à teoria dos chakras para explicar os efeitos dos ritos. Chakras são os centros de energia do corpo. A saúde física e mental está relacionada à saúde dos chakras. Mestres de diversas tradições orientais falam dos chakras e da energia vital (chi, ki ou prana) como as bases da saúde. Alguns vão além, dizendo que toda a saúde depende desse binômio. Segundo eles, se os chakras estão funcionando corretamente, a energia vital flui pelo corpo e o indivíduo tem saúde plena, independentemente de seus hábitos.

Embora seja interessante conhecer a teoria dos chakras, ela não é fundamental para a prática dos ritos tibetanos. O mais importante ao praticar os ritos é a realização correta dos movimentos, a respiração, a atenção e a disciplina. A realização correta dos movimentos proporciona os benefícios associados aos ritos. A respiração permite conforto e bem-estar durante a prática, além de beneficiar a circulação de sangue e energia pelo corpo. A atenção amplia a consciência corporal, ajudando-nos a corrigir eventuais erros e a perceber os benefícios e modificações proporcionadas pela prática. A disciplina mantém o praticante no caminho certo.

“A Fonte da Juventude” traz como posfácio depoimentos de alguns praticantes. Há relatos de curas milagrosas, rejuvenescimento, melhorias em doenças crônicas, raciocínio e memória. Como sou relativamente jovem e, confesso, como não pratiquei os ritos diariamente por um período significativo, esses benefícios não foram percebidos, se existiram. O que pude perceber é que a prática dos ritos aumenta consideravelmente a disposição física. Há uma nítida sensação de leveza e o corpo torna-se mais flexível, o que melhora toda a mobilidade.

O primeiro rito consiste em girar em torno do próprio centro. Conforme explica Kelder, o primeiro rito ativa o funcionamento dos chakras.

O segundo rito é uma espécie de exercício abdominal. Pernas são alongadas, o pescoço é massageado e o abdômen é reforçado. Ao contrário dos exercícios abdominais convencionais, no segundo rito todo o corpo é exercitado, o que estimula também o aparelho digestivo e a musculatura que serve de base para a coluna.

O terceiro rito promove a extensão côncava da coluna, sobretudo da região cervical. Sabe-se que diversas tensões acumuladas no corpo manifestam-se no pescoço e quando esta região está tensa, todo o corpo torna-se tenso. O terceiro rito alivia essas tensões e mantém o pescoço flexível e a garganta relaxada. Este exercício tem semelhanças com o Ustrasana, a Posição do Camelo do Hatha Yoga.

O quarto rito, também conhecido como exercício da mesa, reforça a musculatura lombar e exercita braços e pernas. Como no terceiro rito, o pescoço também é exercitado. Ele é uma combinação de posturas semelhantes ao Purvottanasana e ao Dandasana, do Hatha Yoga.

O quinto rito é o que mais se assemelha a posturas do Hatha Yoga. Na verdade trata-se de uma combinação de Urdhva Mukha Svanasana e Adho Mukha Svanasana, que fazem parte da famosa seqüência da Saudação ao Sol (Suryanamascar). Neste rito todo o corpo é estendido, a respiração torna-se mais leve e fluida e braços e pernas são reforçados.

Explicações detalhadas e ilustradas sobre os ritos podem ser encontradas no livro de Peter Kelder, que pode ser baixado na seção de e-books deste saite.

As origens dos ritos são obscuras e controversas. Não se sabe se o Coronel Bradford existiu de fato; ele pode ter sido inventado por Peter Kelder para tornar a história sobre os ritos mais interessante. Pouco se sabe também a respeito de Peter Kelder, que leva uma vida reclusa na California. Alguns itens tornam os ritos não menos controversos:

1) A medicina tibetana reconhece cinco chakras, não sete como afirma Kelder em seu livro.
2) A medicina tibetana não associa, portanto, a saúde à ativação dos sete chakras, mas ao equilíbrio dos cinco elementos (ar, água, terra, fogo, metal).
3) O yoga tibetano nunca incluiu giros.
4) Lamas ensinam que se deve transcender o corpo, incluindo o apego à juventude e preocupações com o peso e a beleza. O mestre tibetano Milarepa ensina que a doença e o envelhecimento são bênçãos para a eliminação do ego e do desejo de permanência.
5) O verdadeiro yoga tibetano é composto de mais de 100 movimentos diversos.
6) O yoga tibetano inclui também diversos exercícios respiratórios, centenas de visualizações complexas e muitas meditações cujo domínio depende de anos de prática sob a supervisão pessoal de um lama.
7) O verdadeiro praticante tibetano sempre revela o nome e a ascendência de seu mestre, revelação esta que normalmente é acompanhada de versos de agradecimento, respeito e dedicação. De forma semelhante, qualquer sistema tibetano possui diversas referências em relação às suas origens e ao mesmo tempo mantém-se sempre resguardado de interpolações e interferências estrangeiras.
8 ) Monges tibetanos não ensinavam práticas secretas ou qualquer outra coisa a não ser lições espirituais menores aos ocidentais, sobretudo no início do século XX.

Estes itens colocam grande dúvida quanto a autenticidade dos ritos e fazem pensar que eles são, na verdade, uma compilação de diversas tradições orientais, somada ao interesse ocidental por panacéias. Não é impossível que Peter Kelder tenha elaborado um sistema próprio, com base em seu próprio conhecimento das tradições orientais, e tenha decidido apresentá-la num livro como “A Fonte da Juventude” para torná-lo mais interessante.

Escolas e professores ocidentais têm de fato apresentado os ritos como uma panacéia. Há diversos “programas” de treinamento, vídeos, livros, apostilas, aulas. Destacam-se, entre os benefícios alardeados, a clareza da memória, melhor desempenho sexual e o rejuvenescimento. O próprio livro de Peter Kelder pode ser incluído neste movimento ocidental que importa tradições orientais, as adapta e divulga para aqueles que estão dispostos a segui-las. Isto não chega a ser um problema, são formas do Ocidente lidar com tradições que não lhe são familiares. O problema é a perda dos fundamentos e das origens das tradições, que pode acarretar na perda da própria tradição e de sua razão de ser.

Outro e-book disponível neste saite — Yoga da Eterna Juventude — faz referência ao livro de Kelder e apresenta uma seqüência de exercícios muito parecida com a dos ritos tibetanos.

Eu, pessoalmente, associo a prática dos ritos a alguns asanas do Hatha Yoga. Como os asanas são estáticos e os ritos são dinâmicos, uso aqueles como uma forma de repouso e concentração. É possível que cada praticante faça suas adaptações, de forma que gradualmente se chegue à prática dos ritos tais como descritos no livro de Kelder e a partir daí faça as adições que quiser. A meditação pode ser um bom complemento aos ritos, uma forma interessante de relaxar o corpo e observar com mais tranqüilidade eventuais alterações físicas e mentais causadas pela prática.

A minha sugestão é: pratique. Experimente os ritos. Você pode associá-los a outras práticas físicas, como o yoga ou as artes marciais, como eu tenho feito há algum tempo. As explicações contidas nos livros podem ajudar a praticar os ritos sem a ajuda de um instrutor. O bom senso e o conforto podem dizer se a prática está sendo feita corretamente, embora a ajuda de um instrutor experiente seja sempre indicada. Nunca é demais lembrar aos mais velhos que procurem orientação médica antes da prática de qualquer tipo de atividade física.

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Além de “A Fonte da Juventude”, há um livro chamado “A Fonte da Juventude – Livro 2″, que é uma compilação de artigos sobre os ritos. Neste livro os ritos são reapresentados e diversas pessoas — inclusive médicos e especialistas em cultura tibetana — analisam vários aspectos relacionados à prática e aos efeitos dos ritos.

O “Livro 2″ não torna os ritos menos controversos. Seu principal valor está em ampliar as informações disponíveis a respeito deles e em lançar um olhar mais sério sobre o assunto (porque a história do Coronel Bradford é realmente muito fantasiosa). O “Livro 2″ traz exercícios de preparação para os ritos, pois eles podem ser bastante exigentes no começo.

Infelizmente não conheço nenhuma versão eletrônica deste livro, mas a seqüência de exercícios preparatórios para os ritos pode ser encontrada aqui.

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Além de minha experiência pessoal com a prática dos ritos e dos dois livros mencionados neste artigo, utilizei também o verbete dos ritos tibetanos na Wikipedia.

O blog The Five Tibetans conta a experiência de uma instrutora e também pode ser uma boa fonte de informações sobre os ritos tibetanos; nele algumas dúvidas muito freqüentes podem ser esclarecidas. A autora do blog criou um programa de saúde baseado nos ritos e em exercícios respiratórios.

Clique aqui para baixar o livro de Peter Kelder, “A Fonte da Juventude”. Ou vá à seção de e-books para ver este e outros livros.

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2 thoughts on “Ritos tibetanos

  1. Chris,

    Além do yoga, tem muitos exercícios dinâmicos, dados em aulas ( de yoga ), voltados para a flexibilização das articulações, coordenação da respiração e resistência. Ouvi dizer que em certas escolas da Índia sempre se aprende uma nova modalidade. Numa única aula você pode praticar duas ou três dessas modalidades e só. O benefício é surpreendente, principalmente no que toca à leveza e presteza do corpo.

    É um prazer ler os ensinamentos que você seleciona, traz um novo alento. Muito bom!

    Abraços

  2. Pingback: A Fonte da Juventude – Livro 2 « Advaita Yoga

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