Vegetarianismo: prática yogi?


O objetivo deste texto é discutir as ligações do vegetarianismo com o yoga. Não pretendo discutir as diferentes linhas do vegetarianismo; no que diz respeito ao yoga, é suficiente considerar vegetariano toda e qualquer pessoa que exclua a carne de sua alimentação cotidiana, seja qual for sua origem (boi, peixes ou aves). Ovolactovegetarianos e frugivoristas, dois extremos do vegetarianismo, coincidem neste ponto, apenas para deixar as coisas mais claras.

O vegetarianismo tornou-se, sem dúvida, um tema espinhoso. Mais do que simples opção alimentar, trata-se também de uma ideologia. Muitas pessoas levam muito a sério a máxima que diz que “você é o que você come”, em especial os vegetarianos. O veganismo, como é conhecido o ativismo vegetariano, usa argumentos de ordem ética e filosófica para defender a exclusão da carne da alimentação cotidiana. Não são poucos os que fazem essa defesa de forma virulenta e também não são poucos os que trazem isso tudo — vegetarianismo, ideologia e virulência — para dentro do yoga.

Índia

O vegetarianismo encontrou campo fértil entre os praticantes de yoga do ocidente. Inicialmente, isto se deve ao fato do yoga ter-se originado num país associado ao vegetarianismo. Ainda que a Índia não seja uma nação vegetariana (pelo menos 60% da população não são vegetarianos), a proporção de vegetarianos naquele país é muito maior do que em outros países (no Brasil, estima-se que pouco mais de 5% sejam vegetarianos).

Desconheço os motivos que fazem com que tantos indianos não consumam carne, mas a explicação que me pareceu mais razoável foi dada por meu professor: consome-se pouca carne na Índia por razões econômicas — num país pobre e com população gigantesca, imagine as dificuldades físicas e econômicas para fornecer carne a todos. Há poucos motivos para crer que os fatores éticos, religiosos e filosóficos tenham precedido os fatores físicos e econômicos na definição das opções alimentares dos indianos, principalmente porque no resto do mundo estes fatores sempre precedem aqueles. Portanto, não parece correto tomar os costumes indianos como justificativa para a associação entre yoga e vegetarianismo. Isto sem falar que a forma mais tradicional de se preparar o chai, uma das bebidas indianas mais tradicionais e mais apreciadas por praticantes de yoga, leva leite — o que restringe grandemente o vegetarianismo dessas pessoas. Prossigamos.

Ahimsa

O principal argumento a favor da associação entre vegetarianismo e yoga diz respeito ao conceito de ahimsa, que faz parte das bases éticas do yoga. Ahimsa pode ser interpretado como “não-violência” ou “não causar danos”. O vegetarianismo é visto como uma das principais formas de exercitar e manifestar ahimsa. Assim, se o yoga exige a prática de ahimsa e o vegetarianismo é uma forma de ahimsa, então todo praticante de yoga deve ser vegetariano. De fato, muitos professores colocam isto como uma obrigação (link 1, link 2 e link 3).

É necessário, a partir disto, analisar esta idéia (a associação entre yoga, ahimsa e vegetarianismo) à luz dos princípios e propósitos do yoga.

Como muitos leitores devem saber, Patañjali coloca o yoga desta forma:

    I,2: Yoga é a supressão das oscilações da mente

No Hatha Yoga Pradipika o parágrafo I,2 traz o seguinte:

    o ensinamento do Hatha Yoga é somente um meio para a realização do Raja Yoga.

O Gheranda Samhita reforça esta idéia nos parágrafos I,4-5

    Não existem amarras como as da ilusão (máyá). Não há força como a que provém da disciplina (yoga). Não há amigo mais elevado que o conhecimento (jñána). E não há inimigo maior que o sentimento de individualidade (ahámkara). Da mesma maneira que se aprende o alfabeto, com a prática podem-se dominar todas as ciências, mediante o domínio do Hatha Yoga adquire-se no final o conhecimento da verdade que libera a alma da escravidão.

Yoga é, portanto, ao mesmo tempo o conjunto de práticas (como no caso do Hatha Yoga) e o estado obtido com estas práticas (como quando Patañjali se refere ao Raja Yoga, ou “yoga real”). Ainda que o primeiro significado prevaleça, como acontece modernamente, ele só faz sentido na medida em que coloca o indivíduo no caminho da realização do “estado de yoga”. Patañjali, por exemplo, coloca os asanas como uma preparação para a prática de samadhi e Svatmarama, em seu Hatha Yoga Pradipika, é enfático ao dizer que o Hatha Yoga (i.e. as técnicas descritas por ele em seu tratado) é um meio para Raja Yoga. A grosso modo, samadhi e raja yoga podem ser entendidos como kaivalya (libertação), que é o propósito do yoga. Suprimir as oscilações da mente significa obter a libertação e desprender-se das influências de maya — sejam elas originadas externamente, pelas influências do mundo, sejam originadas internamente, por ahamkara.

Ahimsa é um dos yamas ou princípios éticos do yoga, conforme os Yoga Sutras, de Patañjali. Os yamas são o primeiro dos oito membros do yoga. Patañjali assim explica estes oito membros:

    II,28: Assim que as impurezas forem removidas pela prática das disciplinas espirituais — os “membros” do yoga — a visão espiritual do homem abre-se para o conhecimento iluminado do Atman.

Em seguida Patañjali enfatiza a importância dos yamas:

    II,31: Estas formas de abstenção são regras básicas de conduta. Precisam ser praticadas sem restrições de tempo, lugar, propósito ou leis de casta.

Logo, pode-se deduzir que praticar yoga implica a prática de ahimsa. Pode-se discutir de que forma essa prática acontece, pois há sempre o risco de transformar yamas e niyamas em “prisões éticas e morais”, nas quais o indivíduo confunde o dever com o bem, mas deixarei esta discussão para outra ocasião — de outra forma eu me desviaria muito do objetivo inicial deste texto. É suficiente, para este texto, admitir que yoga inclui ahimsa, seja como prática (ou “lei”), seja como conseqüência do desenvolvimento de uma mente iluminada. Deve-se analisar agora se a prática de ahimsa obriga automaticamente o indivíduo a ser vegetariano. Recorro aqui a alguns trechos do livro “Caminhos para Deus”, de Ram Dass. Neste primeiro trecho, Ram Dass deixa claro que ahimsa não é um conceito tão simples como suas traduções mais comuns fazem parecer:

    Existem níveis de sabedoria, e não é totalmente inconcebível para mim que assim como um cirurgião pode realizar uma operação e criar dor para finalmente aliviar o sofrimento, a destruição pode ter o seu propósito.

    (…) Ao trabalhar com ahimsa, temos ainda que compreender de alguma forma as forças de Shiva no mundo, o aspecto de Deus que é a destruição e o caos no universo. Nós como humanos temos que nos esforçar para praticar ahimsa, enquanto que ao mesmo tempo temos que desejar honrar um dharma que pode algumas vezes exigir a violência. Tudo o que podemos fazer é prestar atenção o mais cuidadosamente que conseguirmos para saber qual poderá ser o nosso próximo passo.

    Toda a nossa tentativa para honrar ahimsa é abastecida com complicações e contradições. Por exemplo, fui, por um longo tempo, vegetariano, o que parece ser uma atitude delicada, do tipo ahimsa. Mas eu tomava leite. (…) Ken [amigo do autor] olhou diretamente para mim: “Sabe, você bebe leite. Se gosta de leite, precisa ter bois.” E de repente senti a realidade da minha situação. Para manter uma vaca produzindo leite, ela precisa ter bezerros de tempos em tempos, e a cada vez que fica prenhe, metade dos bezerros que nascem são machos. O que você pode fazer com eles? Pode alimentá-los até que morram de morte natural, mas este não é o caminho natural. Ali estava eu: um vegetariano, mas ainda cúmplice com o destino daqueles bois.

    Por muito tempo usei sandálias [de couro] que vinham do ashram de Gandhi; elas tinham um pequeno que selo que significava que no ashram eles usavam somente vacas que tinham caído mortas na rua. A vaca tinha morrido de uma morte natural, de modo que os yogues podiam usá-las em boa consciência. Mesmo assim, parece um pouco… vocês sabem… E agora temos essas novas informações de como as plantas ficam quando você coloca uma faca perto delas — a nossa dieta está ficando cada vez mais reduzida.

Imagine, por exemplo, um esquimó, um indivíduo que vive numa região inóspita que dificilmente produz vegetais para a alimentação. Praticamente toda sua alimentação depende de carne. Tornar-se vegetariano num lugar desses significa morrer; a opção pelo vegetarianismo nessas condições seria uma violência contra si próprio. Pode-se argumentar que a maior parte da população tem hoje meios de dispor de uma enorme variedade de alimentos e, portanto, pode escolher. De forma análoga, um esquimó dos dias atuais teria condições inclusive de deixar os lugares inóspitos e viver em lugares onde poderia prescindir de alimentos de origem animal. Numa cidade, você pode ir a uma churrascaria ou a uma quitanda — a escolha é sua. Tudo depende de como você encara suas opções alimentares, de como as pratica e de como as leva adiante.

Por exemplo, se você é o filho mais novo de uma família acostumada há várias gerações à tradição do churrasco ou do peixe, talvez o conflito entre a sua opção pelo vegetarianismo e o costume deles seja mais danoso a ahimsa do que a simples conformidade com esse costume. Ou talvez sua opção os leve a abandonar naturalmente o consumo dessas carnes. O fato é que é impossível chegar a qualquer conclusão desde fora. A dimensão social de ahimsa decorre de sua dimensão interior e, paradoxalmente, as escrituras deixam isso claro ao não especificar formas de praticá-lo. Cabe ao indivíduo interpretar e praticar ahimsa. A aceitação simples de que o vegetarianismo é um regra que decorre automaticamente de ahimsa contraria boa parte daquilo que é ensinado no yoga.

A explicação de Ram Dass sobre ahimsa reforça esta idéia e traz à tona o aspecto mais importante deste yama: não se trata de prática superficial, mas de prática interior, um exercício constante de autoconsciência, que deve conduzir a uma transformação interior. E aqui devemos lembrar de Patañjali novamente: toda e qualquer prática (yama, niyama, asana etc.) só pode ser chamada de yoga se de fato conduz o indivíduo à libertação. A obsessão por ahimsa pode tomar uma dimensão tal que o indivíduo torne-se violento e intolerante consigo mesmo e com os outros — exatamente como alguns vegetarianos fazem ao defender e expressar sua opção alimentar, chegando ao ponto de chamar de violentas todas as pessoas que consomem carne. Assim como algumas pessoas dizem que existem diversos yogas porque existem diversos tipos de pessoas, é correto afirmar que uma determinada opção alimentar é adequada para determinados tipos de pessoas — mas não é correto afirmar que aquela opção é adequada para todos ou, pior, que é obrigatória e que as pessoas que não a adotam devem ser repudiadas.

No mesmo livro Ram Dass prossegue falando de ahimsa, para que não haja dúvidas de que ahimsa não é sinônimo de vegetarianismo (grifos meus):

    Tudo que posso partilhar, ao lidar com o assunto de ahimsa, é sugerir que tudo que fizerem, façam do modo mais consciencioso que puderem. Quando os nativos americanos matavam um animal para comer, eles o ofereciam aos seus deuses, e agradeciam ao animal por doar sua vida a eles. Eles matavam para sobreviver e para poder realizar o seu trabalho, e isto está em harmonia com a sua compreensão da maneira como a natureza opera. Isso traz consciência para o ato.

    Porém, ainda não acho que existam regras simples para uma dieta “espiritual”, pois, à medida que passamos por estágios diferentes de nosso yoga, as práticas remodelam nossos corpos e as nossas necessidades físicas, e geralmente descobrimos que a nossa dieta muda. Quando ainda estamos muito aprisionados no pensamento mundano e no peso mundano, precisamos somente daquilo que a Organização Mundial de Saúde diz que é necessário.

Esta última frase de Ram Dass pode servir de base para uma crítica ao vegetarianismo atual, que busca ser “espiritual” (i.e., ético e filosófico) e que tão facilmente se perde em panfletagem corrosiva, ditada desde cima. Da forma como ele se manifesta hoje, o vegetarianismo tornou-se mais uma ideologia do que uma opção alimentar. É cada vez maior o número de pessoas que optam pelo vegetarianismo não porque refletiram e resolveram estas questões para elas mesmas, mas porque foram fisgadas pelos noticiários que pretendem denunciar os horrores da indústria alimentícia e porque não querem participar disso. É um desejo legítimo, mas, como no caso de Ram Dass com o leite e a sandália de couro, é bem difícil ter certeza se somos ou não somos parte daquela estrutura que abominamos ou se apenas nos revestimos de uma casca de bom mocismo em relação aos animais. Não surpreende, por exemplo, que os “alimentos saudáveis” tenham se consolidado como mais um segmento da indústria alimentícia — da qual a produção maciça de alimentos de origem animal faz parte. E as coisas ficam um tanto mais complicadas se lembrarmos que as plantas também sofrem — por que sofreriam menos do que um peixe ou um boi quando as arrancamos do solo e as comemos?

O fato é que a absoluta coerência na opção pelo vegetarianismo ideológico implicaria abandonar a vida nas cidades e alterar uma série de hábitos — que vão desde a escolha do vestuário até os meios de transporte, passando por itens banais, como ler e-mails, dormir e divertir-se. Mas todas estas coisas são, afinal, meios de dispersão ou, nas palavras de Patañjali, causas de oscilações da mente. Portanto, o vegetarianismo pode ser um meio de afastar-se do propósito do yoga e não um meio de realizá-lo.

É claro que há yogis sérios e realizados que são vegetarianos. Além disso, é natural defender os hábitos que consideramos bons e as idéias em que acreditamos. Essa naturalidade tem a ver com o propósito do yoga. O estado de yoga está associado a “fazer simplesmente”, que é algo bem diferente da forma como o homem moderno age. O homem moderno age por algum motivo e com algum propósito e assim, pelo fato de submeter suas ações ao peso do passado (motivo) e do futuro (propósito), jamais se liberta deles, jamais vive o presente com suas ações e, portanto, jamais atinge kaivalya. O vegetarianismo, como qualquer outra prática, pode ser considerado uma prática yogi na medida em que conduz o indivíduo à libertação. O paradoxo — e é de onde surge toda a tensão atual — está no fato de que esse valor do vegetarianismo perde-se no momento mesmo em que um indivíduo sugere que tal prática é obrigatória para todos os praticantes de yoga. Afirmar que o vegetarianismo é bom convida à discussão, à experimentação, ao auto-estudo — o indivíduo é levado a experimentar o vegetarianismo, a estudar o próprio corpo e a própria saúde, a observar-se constantemente enquanto o pratica. Afirmar que o vegetarianismo é obrigatório para um grupo específico de pessoas elimina a discussão antes mesmo que ela surja e tudo o que resta ao indivíduo é seguir a regra e esquecer-se de si. Em outras palavras, o vegetarianismo torna-se um problema quando ele se torna mais uma ação comum, com causas e conseqüências que serão regurgitadas, celebradas e defendidas diante de outras pessoas. A partir daí ele se torna não um motivo para união, autoconhecimento ou libertação, mas para divergência, obscurecimento da consciência e dependência. O vegetarianismo, tal como é praticado atualmente por muitas pessoas, mais obscurece do que ilumina e, portanto, tem pouco a ver com os propósitos do yoga.

Mas e os benefícios do vegetarianismo?

Não descarto aqui os benefícios que o vegetarianismo pode trazer ao yoga, é claro. Em verdade, concordo com a maioria deles porque já os experimentei, mas o carnivorismo também tem vantagens, assim como a macrobiótica, o jejum, o respiracionismo e tantas outras formas de nutrição, umas mais exóticas, outras menos. Sempre haverá dúzias de razões práticas, nutricionais, éticas e filosóficas para seguir qualquer dieta. Por exemplo, a prática física do yoga exige alimentação leve, que com freqüência exclui carnes — porque têm digestão mais lenta, porque alguns tipos pesam mais no estômago do que alimentos de origem vegetal etc. Emocional, filósofica e espiritualmente é possível que também haja benefícios, mas prefiro que isso seja avaliado individualmente, que escolhas deste nível sejam feitas com consciência e que de fato elas possam ampliar a percepção do Ser. Infelizmente muitas pessoas ainda pautam suas escolhas nutricionais por aquilo que o Globo Repórter diz.

Neste sentido, faço minhas as palavras de Ram Dass, citadas anteriormente: “tudo que fizerem, façam do modo mais consciencioso que puderem”. Yoga não é vegetarianismo. Yoga não é comer isto e deixar de comer aquilo. Yoga é consciência. Mais do que isso, yoga é consciência da própria consciência e também consciência da consciência que se conscientiza de si. Superadas essas diversas camadas da consciência revela-se finalmente o estado de yoga e a alimentação tem pouco a ver com isso.

Como dizia o Nazareno: Nada há, fora do homem, que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai dele isso é que contamina o homem. (Marcos 7: 15)

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6 thoughts on “Vegetarianismo: prática yogi?

  1. Ótimo texto, me fez repensar muitas coisas, e realmente é uma boa chamada para aqueles que se mostram tão adversos aos que não seguem a cartilha.

    Só não acho tão provável que o vegetarianismo na India tenha surgido por conta de uma preocupação econômica ou geográfica, isto pode ter sido somente um argumento usado por Gandhi para defender o vegetarianismo. Me parece que há muito mais a explorar no campo da espiritualidade.

    Gosto especialmente da história de Krishna, recebendo a pura devoção das vacas, e não vejo ficção alguma nisso mas real comunicação. Também toca a sensibilidade saber que as plantas, no Yajur Veda, eram qualificadas como “ deusas”, e os Jainistas – que jamais impunham seu estilo de vida – preferiam se alimentar dos cereais que caiam por terra para que estes não sofressem com a colheita…

    Cada aprofundamento desses que você propõe vale por uma prática. Obrigada!

  2. Olá, Eliane.

    De fato, faltam-me elementos para encerrar a pesquisa sobre as origens do vegetarianismo indiano. Toda informação é bem-vinda.

    Fico feliz que tenha gostado do texto. Eu que agradeço.

    Abraços.

  3. Ótima reflexão! Fui vegetariano por mais de uma década, até me abrir, hoje, para as “carnes do mar”. E esta exceção abri porque cheguei à conclusão que você descreve aí. Mas existem dois pontos bem interessantes: não é só o fato da ahimsa, que aliás você traduz bem (“não causar dano”), mas uma outra questão: os gunas. Tudo neste mundo está regido pelos gunas (sattva, raja, tama), e os alimentos “mortos” estariam sob regência do tama guna, o que prejudicaria, dizem, o andamento espiritual. No entanto, nosso corpo também é regido por tama, e necessita “alimentos” tamásicos em determinadas horas; olha que curioso!, o Vedanta-Sutra dá permissão explícita para comer carne em situações complicadas. Outra coisa, o vegetarianismo não está na base da cultura védica, e portanto, da cultura do yoga. Vegetarianismo na Índia é fato recente (historicamente falando). Numa reflexão final, diriam que comer carne atrapalharia a evolução da alma, mas a alma não evolui, a alma é, nada neste mundo (caso queiramos) pode afetá-la. Bem, sem falar que hoje vegetarianismo virou ideologia, e muitas vezes tão violenta a ponto de estar distante do princípio de ahimsa.

    Sou recebido quase a ponta-pés quando falo isso numa roda ou em público – mas é vero!

    Abraço.

  4. Bem lembrado, Leonardo. Realmente não levei em conta os gunas no meu texto, embora seja um enfoque quase obrigatório no que diz respeito à alimentação.

    Muito obrigado pelos ótimos acréscimos.

    Abraço!

  5. Como foi escrito, a tomada de consciência é primordial para o desenvolvimento da percepção de que o Eu e o Todo são a mesma coisa. Valer-se do sofrimento, angústia e terror desmedidos pelos quais os não-humanos padecem, firmado unicamente pelo aprisionamento do homem ao seu paladar e à satisfação egoísta só mostra a distância que a espécie humana está desta consciência plena.

    Argumentos perigosos foram colocados no texto, como a tentativa de comparação entre os reinos vegetal e animal, pois possibilita ao leitor deixar de lado as diferenças estruturais dos organismos destes reinos. A presença do sistema nervoso e do sistema neural no reino animal, por exemplo, que desencadeiam a dor ou o terror e pânico, e motivam respostas de defesa diante de estímulos que ameaçam a integridade física dos seres do reino animal.

    Saber, como organismo animal, a dor que se pode sentir, o terror, o medo responde o fato de que alguns – muitos – conhecedores profundos do Yoga também desaconselhem de forma mister o financiamento da exploração, da violência e da matança em detrimento dos não-humanos. A questão vai além da desestruturação pontual, ou seja, do prejuízo do ser que foi violentado e na constante destruição da estrutura deste planeta, mas tais atitudes desencadeiam também uma influência sutil – energética – negativa no planeta e no universo, de forma geral.

    Toda a questão está na tomada de consciência. Seria melhor, então, que as mídias não mostrassem a realidade para nós, da violência, para que continuássemos satisfazendo nossa sede de sangue através da alienação?

    O “ativismo”, tido como um termo pejorativo neste texto, do veganismo procura mostrar à sociedade que se pode ter uma vida livre de produtos e sub-produtos de origem animal, e as mudanças positivas nas ações sociais são consequencia da atenção que foi possível perceber através da conscientização.

    Não se pode esquecer que o ser humano é um sujeito social, sendo inerente a comunicação levando sempre em conta o bem-estar do sistema. Hoje, este bem-estar começa a sair do grupo exclusivo humano e sem este “ativismo” como seria possível uma mudança de paradigma?

    Estabelecer um comportamento livre de qualquer violência é possível. Um comportamento livre de sangue e terror é possível e é o caminho para a plenitude. Informar-se e tentar mudar o desespero da situação atual é o caminho para a paz. Ao contrário da estagnação e acomodação, presente em tantos níveis da vida do humano. O vegetarianismo, portanto, não é obrigatório, mas o caminho natural.

    Yoga é consciência. A consciência se dá através da busca: de informações, da verdade, da conduta ética, do bem pleno. Seguir uma ideologia é o reflexo da busca e da absorção destas informações.

    Paz entre os seres e dentro de cada coração
    Força para buscar a verdade
    E música a cada dia

    • Talita,

      antes de tudo, muito obrigado por seu comentário. Seja sempre bem-vinda a este blog.

      Eu não tenho intenção de discutir a importância do vegetarianismo, seja ela física, ambiental, social ou ideológica. Meu foco era o yoga e seu objetivo e como o vegetarianismo se encaixa nisso, afastando-nos ou conduzindo-nos a esse objetivo.

      A pergunta que eu faria a você a partir deste ponto é: em que medida o vegetarianismo está relacionado com kaivalya? Existe algum fazer (mundano, pela própria definição de ação) que pode alterar a realidade do Ser? Aquilo que você realmente é se altera se você comer carne? Penso que não há nenhuma relação entre vegetarianismo e kaivalya — i.e. a ação não altera o Ser. Aquilo que você é não se altera de forma nenhuma — independentemente de você ser vegetariana, praticar asanas com disciplina e naturalidade e ter uma rotina digna de um sadhu. Alguns santos eram vegetarianos, outros não. Ramana Maharshi tomava todas as noites um copinho de coalhada. Nisargadatta Maharaj comia carne. Até onde foi possível estabelecer, Jesus comia peixe. Estas informações deveriam ser suficientes para entender que a alimentação nada tem a ver com santidade e com kaivalya.

      É claro que não questiono os benefícios dessas práticas, apenas me chama a atenção a forma como tais práticas podem ser prejudiciais à realização do yoga. De forma análoga e ainda mais clara, é simples notar que a prática obsessiva de asanas pode levar o indivíduo a uma tal identificação com o corpo que o aprisionaria irremediavelmente nas ‘teias de Maya’.

      Num ritmo que considero adequado para mim, tenho deixado de lado os alimentos de origem animal — a sensação física de não comer carne é boa e é adequada à prática de asanas. Também me solidarizo com o sofrimento dos animais e reconheço que a indústria alimentícia tem muitos meios para ser cruel e é boa opção buscar saber de onde vem o alimento que consumimos, se não estamos comendo lixo ou veneno. Mas não vejo de que maneira minhas escolhas alimentares podem me levar a kaivalya. Existem coisas que são apenas deste mundo — e aquilo que fazemos com o corpo é uma delas. Não alimentar ilusões, esta é a chave.

      Kaivalya (ou moksha, se preferir) diz respeito a libertar-se deste mundo, de suas influências e de seus ditames. Quanto mais nos preocuparmos com o corpo, mais nos identificaremos com ele e mais aprisionados seremos por ele. O mesmo pode ser dito das questões ambientais, das questões sociais e ideológicas. Nada disso faz parte do Eu. Nada disso tem a ver com libertação. Nada disso traz luz, mas apenas obscuridade. Patañjali já falava disso na segunda frase de seu Yoga Sutra: “yoga é a supressão das oscilações da mente”. Boa parte do vegetarianismo praticado atualmente é vritti — dispersão, alteração, oscilação –, que em nada ajuda para conduzir-nos a kaivalya.

      Yoga não é consciência, porque isto implica ser consciente em relação a alguma coisa. Yoga é autoconsciência e não há relatividade nisso — yoga é o olho que vê a si mesmo, a pele que sente a própria temperatura, a mente que silencia. Aquilo que chamamos de consciência nada mais é do que a conseqüência direta da autoconsciência. Como é possível ser consciente se não somos autoconscientes? E como é possível ser autoconsciente enquanto priorizamos a consciência e tudo aquilo que o mundo insiste em nos oferecer?

      Obviamente, tudo isso depende de seu objetivo no yoga. Se você já se perguntou — sozinha, no isolamento de uma prática de samadhi — sobre seu objetivo no yoga, já deu o primeiro passo para o desenvolvimento da autoconsciência e tem condições de compreender facilmente o que eu quis dizer com estas palavras e com meu post.

      Namaste.

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