Por que subir no tapete?


É um pouco de ingenuidade crer que, por exemplo, a prática de asanas pode levar o indivíduo à realização suprema do yoga — seja lá o que for isto. O próprio Patañjali dividiu o yoga em práticas externas (bahiranga) e internas (antaranga) e deixou claro que aquelas eram degraus para estas e não constituíam um fim. Ainda que muitos e muitos livros e aulas e cursos sejam dedicados aos bahiranga, eles correspondem no máximo a metade do yoga (como sistema) e, conforme a definição clássica, não podem levar à realização do yoga (como estado).

Meu professor costuma repetir que o maior benefício dos bahiranga é evitar problemas. A incapacidade de sentar-se longamente em meditação pode ser contornada com a prática de asanas. A dificuldade de manter a calma ou a concentração pode ser resolvida com pranayama. Uma congestão nasal, que atrapalharia tanto a realização de pranayama como de asanas, pode ser atenuada com jala neti. A prática de yamas e niyamas pode dissolver o espírito competitivo e a inveja (reações normais em aulas físicas em grupo), a frustração e a irritação (reações normais quando não se consegue realizar algo que o professor transmite), o medo e o desejo (reações normais quando se respira). Estudiosos da yogaterapia vão além ao defender a eficácia de algumas práticas do yoga — em especial asanas e pranayamas — na cura de doenças. E é claro que sem estes obstáculos todos é muito mais fácil fazer qualquer coisa, não apenas yoga.

É ainda mais claro que subir no tapete e realizar asanas e pranayama é apenas uma entre tantas formas de praticar o yoga. Como já disse em outros posts, yoga não é algo que se faz num lugar específico, numa hora específica, sob orientação específica, com objetivos específicos. Yoga é uma forma de viver e, como tal, você o vive aqui e agora ou simplesmente você não o vive. A confusão entre o dedo e a lua — a assunção de que este pranayama ou este asana são yoga e que outras formas de respirar e de se movimentar não são yoga — tem dificultado a compreensão de que yoga é tudo, isto é (mesmo que isto soe como um clichê), o processo de levar o indivíduo da obscuridade à luz, da ignorância à consciência, da prisão do corpo e da mente à libertação do corpo e da mente. E, para realizar estas coisas, uma ou duas horas diárias sobre o tapete não são suficientes — é necessário ver o mundo todo como seu tapete.

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