Tradição, verdade e mentira


Como assim?

Sarvangasana não significa “postura da vela”. Sarva significa tudo, todo; anga significa parte. Portanto, sarvangasana significa “postura da totalidade” ou “postura do corpo inteiro”.

Namaste não significa “o deus que está em mim saúda o deus que está em ti”. Namaste significa apenas “eu te saúdo”, trata-se de uma saudação bastante comum entre os indianos, embora mais formal e respeitável do que “oi” ou “olá”.

Estes são dois pequenos exemplos de erros que ganham ares de verdade sólida, inabalável e bacaninha. A tentativa de mostrar o erro contido nestes exemplos causa reações bem estranhas.

O uso de nomes errados para os asanas é assunto pequeno, embora se saiba que muitos nomes têm relação com a origem do asana (como matsyendrasana ou virabhadrasana) e/ou com sua própria composição anatômica (como padahastasana). Saber os nomes corretos dos asanas ajuda a compreendê-los melhor e ao compreendê-los melhor é possível executá-los melhor.

A saudação também é assunto de pouca importância. Entre brasileiros, o uso de uma saudação em um idioma estrangeiro reveste a pessoa que a usa e a situação com uma couraça diferenciada e especial. Namaste pode ser uma saudação comum, mas na boca de estrangeiros ganha um tom místico, quase divino. Com efeito, não há nada de especialmente errado em interpretar uma saudação, buscando mensagens ou temperos ocultos. Toda saudação pode ser entendida como uma oferenda, como uma manifestação divina, como a expressão do respeito mais profundo — ou, ainda, como simples jargão para destacar os que participam de uma determinada turma daqueles que não participam. Há praticantes de yoga, por exemplo, que usam outras expressões em vez de namaste e não consta que essas expressões são interpretadas de forma tão teísta. Ademais, em nenhum idioma uma única palavra tão breve como namaste pode significar algo tão extenso como “o deus que está em mim saúda o deus que está em ti”.

O problema dos pequenos erros é que, somados, eles se tornam grandes — ou acabam por construir um castelo de erros onde as pessoas se resguardarão e praticarão ióga, yôga ou outras coisas do gênero. Passa-se daí para a mentira e daí para a criação de novos erros, ainda maiores, como o daquele professor que disse que só pratica realmente yoga quem consegue fazer svarga dvidasana (também conhecido como baddha pakshasana).

Muitas pessoas torcem o nariz para estas idéias e dizem que não há motivos para se preocupar com a distinção entre verdade e mentira argumentando que o fundamental no yoga é a experiência pessoal, a prática, o contato direto do indivíduo com as técnicas propostas pelo yoga. Mas estas coisas não surgem do nada. Tiveram um início, têm uma história, uma trajetória, foram registradas nos ensinamentos de mestres, em escrituras, em livros e em aulas.

Uma técnica de meditação que consiste em cobrir o corpo com chocolate e rolar na areia enquanto se canta o hino nacional brasileiro provavelmente não constitui uma técnica do yoga. Afirmar que tal técnica pertence à tradição do yoga não faz com que essa técnica realmente faça parte do yoga. Afirmar que a tradição do yoga não é assim tão tradicional também não é suficiente para chamar qualquer coisa de yoga. Se a experiência direta determina a validade de uma técnica, essa experiência inclui submeter a técnica ao crivo da tradição, estudar as escrituras, estabelecer pontes entre o novo e o velho, entre o moderno e o tradicional.

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