Sem corpo

Há uma semanas meu primo me fez uma pergunta interessante. Pela reflexão que o tema suscita, peço licença a ele e reproduzo a pergunta e a resposta aqui.

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P.: Se alguém fica paraplégico ou tetraplégico, como essa pessoa deveria exercitar sua espiritualidade e auto-conhecimento?

R.: Sua pergunta me faz lembrar do que meu professor disse sobre “yoga para todos”: se a pessoa respira e tem um mínimo de consciência sobre esse ato, ela pode praticar yoga, porque a respiração e a consciência são os pontos de partida materiais para o universo imaterial.

No yoga, há o que chamamos de “antarangas”. Vou tentar ser breve para explicar isso: a definição clássica de yoga divide esta disciplina em oito partes (ashtanga; ashta=oito, anga=partes). As cinco primeiras são chamadas bahirangas (bahir=externo), ou práticas externas. Um exemplo de bahiranga são as posturas (os asanas). As três últimas são os antarangas (antar=interno), que são os três últimos estágios do yoga clássico. Normalmente elas são reunidas e chamadas genericamente de “meditação”, mas são três “angas” distintos e no yoga há algumas técnicas para experimentar e desenvolver cada um desses angas. Em outras palavras, além das práticas que atualmente são chamadas de yoga e que dependem muito do corpo para serem desenvolvidas há uma gama bem ampla de técnicas. Como se trata de práticas internas, quem olha de fora simplesmente não vai perceber que algo esteja acontecendo ou sendo praticado.

A respiração e a consciência sobre a respiração são o “prefácio” das práticas internas, em que o corpo e a própria consciência serão deixados à própria sorte. Sobre isto, aliás, leia algo sobre Ramana Maharshi, considerado por muitos o maior santo hindu do séc. XX.

Teoricamente, dispor de uma mobilidade reduzida tornaria mais fácil a pessoa perceber que ela não é um corpo, mas que o possui — isto é, o corpo está contido naquilo que ela realmente é. Em outras palavras, se o indivíduo compreende o que é autoconhecimento e espiritualidade, sua condição física não terá nenhuma importância. Digo “teoricamente” porque, obviamente, para a maioria das pessoas ver-se limitado por uma cadeira ou por uma cama pode ser algo bem difícil de resolver mental e emocionalmente. Então, é necessário ser cauteloso ao afirmar tais coisas. Claro que se trata de uma investigação que o indivíduo deve fazer consigo mesmo. A meditação nada mais é do que uma imobilidade voluntária, que lança o indivíduo numa espécie de abismo pessoal — um lugar ou condição que por outras vias não são atingidos. (“abismo” pode soar como algo ruim, mas quem já meditou sabe que o termo é adequado e não necessariamente negativo)

Sob o ponto de vista do Cristianismo, talvez a imobilidade seja uma forma de perceber de forma diferente as lições do Nazareno (v. por exemplo, Lucas 17:20-21 e Romanos 8:10) e compreender que a espiritualidade realmente não é deste mundo.

Caso tenha feito a pergunta esperando uma resposta mais prática, eu recomendaria fortemente a essa pessoa o estudo das escrituras — sobretudo as do Cristianismo e do Advaita Vedanta. Não se pode compreender genuinamente a espiritualidade sem mergulhar realmente naquilo que foi dito no começo — isto é, pelos mestres — sobre tais coisas.

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Complemento: recomendo também a leitura deste post sobre shavasana. Shavasana (às vezes grafado savasana) é a postura do cadáver. Trata-se de uma condição em que nenhuma ação física é necessária ou permitida; o corpo permanece completamente inerte, abandonado ao chão. A prática regular de shavasana (10 minutos diários seriam um bom começo) certamente ampliaria a percepção sobre o tema deste post. Depoimentos neste sentido serão muito bem-vindos.

O yoganidra também deve ser lembrado aqui, mas sobre isso falarei noutra ocasião.

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