Yoga, palha e bom-mocismo

Upanishads: sem papas na língua

Digam-me: é só impressão minha ou realmente há no yoga uma tendência muito grande para silenciar diante da ignorância, de heresias e de absurdos evidentes e, ao mesmo tempo, criticar e repudiar veementemente todos aqueles que decidem criticar e repudiar a ignorância, a heresia e o absurdo? É proibido divergir e questionar? Toda crítica precisa ser vista como um ataque pessoal?

Estas perguntas devem-se ao seguinte.

Como todos sabem, hoje em dia há muita diversidade no yoga — dos yogins habituados ao samadhi até os mallakhambistas competidores. Há pessoas atentas à tradição e há pessoas que praticam o yoga por esporte. Ainda que seja impossível e inútil estabelecer o que é «melhor» e o que é «pior» — visto que práticas e conteúdos diferentes se prestam a pessoas diferentes –, é possível discutir essas diferenças, aproximá-las e compará-las. Não há nada mais normal do que ter preferências e expressá-las — dentro e fora do yoga. Para o estudante sério, ter preferências e expressá-las é uma forma de evoluir. Nenhum estudante sério expressaria suas preferências pelo desejo simples de encontrar eco; ele as expressa para trazê-las aos debates e expô-las às críticas (preferencialmente, as construtivas), para mantê-las vivas e em constante evolução.

Há no entanto uma grande dose de bom-mocismo no yoga, um excesso de respeito e polidez ao lidar com diferenças — seja de conteúdos, de opiniões, de preferências. Já ouvi algumas pessoas se justificarem dizendo que dois sistemas como, por exemplo, Bikram e Sivananda simplesmente não podem ser comparados porque não tratam da mesma coisa, isto é, são diametralmente opostos. Mas os fatos são outros: estes dois sistemas têm «yoga» no nome, seus respectivos criadores também falavam constantemente que o que ensinam é «yoga». Logo, os dois sistemas e os dois mestres podem ser colocados no mesmo balaio e estudados à luz dos mesmos critérios — por exemplo, a definição clássica, dada por Patañjali. Se não podem, alguém por favor me diga por que.

Em busca de explicações para a habitual indisposição para discutir e comparar, encontro três: preguiça, medo de discutir ou apego patológico às próprias idéias. Se a discussão e o combate intelectual não são compatíveis com o espírito do yoga, essas três coisas são ainda menos.

No campo das idéias, dentro ou fora do yoga, eu sempre achei que a atitude ideal era a promiscuidade absoluta: eu abandono minhas idéias tão logo encontre outras melhores. Idéias devem ser tratadas à base de pão velho e porrada. Idéias devem ser expostas ao ridículo e ao debate, devem ser achincalhadas e maltratadas, devem ser deixadas ao relento. Se sobreviverem a tudo isso é porque realmente vale a pena mantê-las e pronunciar-se em defesa delas.

Quando deixamos o plano individual e passamos ao plano coletivo/social do yoga e quando deixamos a solidão da prática individual e passamos aos métodos e às práticas em grupo é natural que surjam divergências e conflitos. No yoga, tudo aquilo que pode ser compartilhado também pode ser discutido, criticado, estudado e aperfeiçoado e todas estas ações são naturalmente permeadas por divergências e conflitos. Estes fatos só se tornam ruins se são evitados a qualquer custo, como se discussões não fizessem parte da natureza humana e fossem o antônimo de civilidade, como se um yogin fosse um semideus numa torre de marfim.

Quem quer que tenha estudado a biografia dos mestres de diversas tradições espirituais — dentro e fora da Índia — sabe que os atributos que definem o ser humano não se dissolvem com a evolução espiritual. É claro que certos desvios de caráter se dissolvem, assim como o ímpeto para divergir e expressar opiniões — Albert Camus dizia que a maioria de nós é um incendiário na juventude e um bombeiro na maturidade. Contudo, por mais iluminada que seja uma pessoa, ela continuará tendo fome, sede, contas para pagar e roupas sujas para lavar. E precisará de água e comida, terá que ir ao banco e precisará de sabão. Em outras palavras, o sujeito iluminado continuará vivendo em sociedade e lidando com pessoas não-iluminadas. Os conflitos continuarão sendo inevitáveis. Por que negá-los? Que mal há em chamar A de A, B de B e dar uns toques em quem insiste em chamar A de B e B de A?

Digo isso tudo porque já houve quem questionasse certos temas que tenho abordado neste blog, assim como o tom crítico que uso para abordá-los. A relação entre estes escritos e o yoga não é direta. Yoga é prática silenciosa, como a maioria já sabe. Eu tendo a escrever demais e a falar demais. Mas este sou eu e seria infinitamente pior se eu me pusesse a forçar um «tipo» com base naquilo que a maioria das pessoas crêem que um yogin «tem que» ser. Não há nada pior no yoga do que seguir estereótipos ou seguir a opinião alheia apenas pelo desejo pouco sincero de agradar e de manter uma aparência que corresponda àquilo que as pessoas imaginam ser um yogin. Ao mesmo tempo, não me parece que a inexistência de divergência e conflitos resulte de uma harmonia genuína entre as pessoas. Existe uma enorme diferença entre polidez e ahimsa. Em muitos casos, quem critica os críticos mostra-se mais beligerante que os próprios críticos.

Claro que é possível que o silêncio diante dos turbilhões de idéias e possibilidades decorra de uma noção de que há coisas mais importantes para fazer. O indivíduo pode se considerar sinceramente superior às miudezas que geram discussões como as deste texto, sem que haja nessa atitude qualquer traço de egocentrismo ou arrogância; ele faz assim simplesmente porque sabe que o silêncio é uma boa resposta e sabe qual é seu lugar no mundo. Supondo que seja este o caso, seria uma enorme falta de compaixão para com pessoas que, como eu, dependem dos sinais e das orientações de pessoas iluminadas, dispostas a explicar, por exemplo, que todos os parágrafos anteriores são — como dizia Sto. Tomás de Aquino — palha, somente palha.

Om Shanti.

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