De revistas e pessoas reais

Anúncio veiculado na Yoga Journal americana: hora de vender meias; tirem as crianças da sala.

Semana passada deparei-me com alguns artigos que lançam críticas à revista Yoga Journal.

O primeiro deles tem o título «Eu odeio a Yoga Journal» e foi publicado no blog Recovering Yogi. Trecho (tradução chulé, perdoem):

(…) Eu abro a revista esperando encontrar inspiração, ou pelo menos evitar aborrecimentos, mas lá pela página três eu já estou aborrecida. Tantos anúncios. Tantos anúncios estúpidos. Não apenas anúncios velados de coisas esotéricas que ajudarão você a obter iluminação mais rápido (como um despertador zen), mas anúncios de comida para animais de estimação (porque mulheres brancas têm gatos) e Subarus (caso as leitoras vivam em Vermont ou no Colorado). Os artigos também podem ser anúncios de como conduzir o relacionamento com seu ex-marido, a nova esposa dele e o gato deles, como ajudar pessoas em outros países a fazer cestas e objetos natalinos, e como não peidar enquanto você faz aquela postura desafiadora que acabou com seus joelhos ano passado. (…)

(…) É como um «bumerangue samsárico» colorido e brilhante que acaba acertando sua nuca. Talvez seja isso: eu tenho que ser sacudida e descer ao nível de consumismo e superficialidade que pulsa em cada página reciclada e impressa com tinta que cheira a tofu. Talvez os ávidos leitores (como se houvesse algo para ler) da Yoga Journal estejam perambulando numa nuvem de cândida vegetariana e não tenham exatamente o equilíbrio da flora necessário para perceber que a prática de yoga deles não vai se desenvolver na mesma proporção do número de meses de assinatura da revista. Parem com isso, senhoritas. A última coisa de que vocês precisam é adicionar à consciência um falso ideal e viver de acordo com ele.

Continue lendo

Anúncios

Riscos e paradoxos do ensino do yoga

O primeiro e maior risco de ensinar yoga é permitir que o estudante acredite que realmente tem algo a aprender fora de si mesmo, isto é, não deixar claro ao estudante que todas as técnicas e discursos são «o dedo que aponta a lua», não a lua. Obviamente, o risco é muito maior para o estudante do que para o professor, que, no máximo, expõe-se à chance de ser tomado como figura hierárquica importante, como linha principal de transmissão de um conhecimento que, na verdade, não vale a pena ser absorvido se não vem da própria experiência consigo mesmo. Já o estudante expõe-se ao risco do deslumbramento, da repetição psitacídea, da ignorância travestida de erudição.

Quando notamos que a maioria das escolas e dos grupos depende em algum grau desse deslumbramento — e há graus saudáveis, é claro –, compreendemos por que são raros os professores dispostos a declarar a própria inutilidade e a reafirmar valores tão fundamentais como svecchacara (agir conforme a própria vontade).
Continue lendo

Yoga, ópio do povo

Pisar nos alunos é tããão divertido...

O título traz em si uma afirmação com a qual eu não concordo em absoluto. Yoga não é droga ou alienação. Ocorre, no entanto, que o yoga tem sido colocado a serviço de demandas um pouco estranhas.

É natural praticar o yoga para alongar e fortalecer músculos, para curar dores de cotovelo ou para simplesmente aliviar o stress físico e mental. Não me agrada dizer que estas opções são «erradas», prefiro dizer apenas que elas não têm relação com aquilo que o yoga propõe.

Já dissertei algumas vezes sobre o que o yoga propõe verdadeiramente, por isso acho melhor colocar de forma mais breve e direta desta vez: o objetivo do yoga é unir o homem e Deus. Muito poderia ser dito sobre isso, a começar pelo fato de que essa desunião não existe e nunca existiu. Mas deixe assim por enquanto: o objetivo do yoga é unir o homem e Deus.

Se você quiser tomar isso sob o ponto de vista da prática moderna, de escolas, associações, métodos, sociedades etc., pense que o objetivo do yoga é realizar Deus na Terra. De forma análoga à colocada anteriormente, essa realização já está dada. Deus está presente aqui e agora, em mim, em você, nós é que temos o péssimo hábito de não O ver.

O que se faz hoje com o yoga equivale a apontar uma flecha para a água, em vez de lançá-la ao alvo bem à sua frente. Sob muitos aspectos pode ser divertido lançar flechas na água, mas não espere atingir o alvo dessa forma.

Esqueça Ganesha

Presente de Natal?

No yoga, no que diz respeito aos seus aspectos mais esotéricos, eu lembro sempre de Confúcio:

Chi-lu perguntou como os espíritos dos mortos e os deuses deveriam ser servidos. O Mestre disse: «Você sequer é capaz de servir aos homens. Como poderia servir aos espíritos?».
«Posso perguntar sobre a morte?»
«Você sequer entende a vida. Como poderia entender a morte?»

— De «Os Analectos», XI:12

Isto não é uma apologia do Confucionismo — porque o yoga, como tantas outras tradições, basta-se em si —, mas uma apologia do pé no chão. É com base firme que se observa a realidade e que se aprende algo sobre ela no yoga. Já vi gente demais rezando a Ganesha como quem oferece uma maçã com mel ao gnomo que fica na estante — talvez porque a maioria realmente faça oferendas ao gnomo da estante depois de acender incensos para Ganesha.

Nada contra rituais, mas se eles não passam de simpatia e não são encarados como rituais genuínos (o que demanda fé, prática, disciplina e estudo), pior para quem os aceita, os segue e os realiza.

Yoga é união?

leão e cordeiro

Unidos, só mesmo na ficção

Imagine um cordeiro e um leão, como os que aparecem na imagem acima. Continue imaginando. Coloque-os juntos. O que acontece? Sei, não é muito agradável.

Agora imagine uma aula de yoga — silêncio, ambiente tranqüilo, luz suave, movimentos lentos. Imagine em seguida estas coisas: ginástica aeróbica, culinária, rituais budistas, marketing de rede, xamanismo, sauna seca, rave, Grateful Dead (sim, a banda) e samba. Agora escolha qualquer uma destas coisas e junte com a aula de yoga. Sei, não é muito agradável.

Há quem considere agradável. Certamente não há problemas sérios em misturas esquisitas quando as pessoas demonstram que sabem que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa e que certamente há limites ao unir coisas diferentes. Os problemas começam a surgir quando essas diferenças são esquecidas ou ignoradas ou, pior, quando a mistura de coisas tão diferentes é justificada com frases fora de contexto.

Uma dessas frases é yoga é união. O raciocínio é simples: se yoga é união, logo é permitido unir qualquer coisa ao yoga. Não, não é.

Eu já havia tratado desse assunto aqui. Além do que eu disse naquela ocasião, vale a pena lembrar que a frase completa seria: yoga é a união de Atman e Paramatman (ou prana e apana, Atman e Brahman, alma individual e alma universal etc.). Ou seja, yoga é o ato de unir dois “objetos” muito específicos, não o ato simples de unir qualquer par de objetos.

Isto seria bem evidente para qualquer pessoa que olhasse com sinceridade o mundo material. O leão e o cordeiro da imagem acima não podem ser unidos — é a natureza deles. De forma análoga, é bem difícil unir cães e gatos, água e óleo, palmeirenses e corintianos, funkeiros e músicos eruditos, elefantes e fuscas etc.

Simplesmente não tente unir estas coisas. Simplesmente não afirme que yoga é união sem ter em mente as especificidades dessa tradição e sem reconhecer a natureza dos objetos que você pretende unir.

Isso é yoga?

Utilidade pública:

O título do post é o nome do excelente blog de Bruno Jones, que cumpre a pestilenta tarefa de trazer à tona os piores (e mais divertidos) exemplos do que tem sido feito usando o santo nome do yoga ao redor do mundo. Entre os posts recentes, jedi yoga, rocket yoga (sim, rocket de foguete…), samba yoga e reggae yoga.

Aprofunde-se

Uns meses atrás li um texto — infelizmente não guardei a fonte — em que o autor, tratando de religiões, falava da importância de se aprofundar. Ele comparava o estudo e a prática de uma religião ao ato de cavar em busca de água doce: cavar vários buracos rasos em vários pontos diferentes certamente não trará resultados; o que realmente permite encontrar água doce é cavar fundo num único ponto. Como o leitor notará, a metáfora aplica-se a muitas coisas — ao yoga inclusive.

No yoga, a busca por métodos, linhas, escolas e orientações assemelha-se a cavar raso. Neófitos do yoga entusiasmam-se com esse turbilhão de invenções, sobretudo ao notar que muitas delas trazem benefícios palpáveis. Mas raramente fornecem água. Trazem a sensação de matar a sede, mas não permitem que a água corra, não permitem que o indivíduo realmente disponha de uma fonte permanente de água. Cada novo buraco indica outro ponto onde o indivíduo deverá cavar, submetendo-o a uma busca interminável que apenas aumentará sua sede.

O leitor poderá replicar que cavar fundo num único ponto pode revelar ao fim um solo seco, donde não se conseguirá uma única porção d’água. De forma análoga, a dedicação exclusiva a um único método pode lançar o indivíduo no vazio caso descubra que os anos de prática e estudo não frutificaram verdadeiramente. E assim muitas pessoas afirmam que é na diversidade que o Princípio se revela. Eu concordaria com isso se soubesse que cada um dos métodos modernos aplacou a sede de pelo menos uma pessoa. Certamente produziram pessoas mais saudáveis, mais fortes, mais bonitas, com melhor postura física, mas deixaram a água fluir? Revelaram, ao fim, uma fonte inesgotável de água fresca? Pelo menos seus apóstolos mataram a sede? O que aquele método produziu? Maestria cobiçosa ou verdadeiro aplacamento da sede?

link da imagem

Supercardiopowerfitnessyogaplus

Quais as diferenças entre isto e uma sessão de musculação ou ginástica aeróbica? Receio que não seja nenhuma. Muitas pessoas — que não concordarão comigo — dirão que existem mil diferenças entre o yoga e práticas físicas convencionais e que um dos objetivos das aulas de yoga é estimular no aluno autoconsciência e introspecção suficientes para que ele desenvolva sua própria prática e, a partir daí, colha os benefícios particulares do yoga, aqueles que não serão obtidos com nenhuma outra prática.

Mas não é isso que ocorre. Primeiro, uma prática como a que o vídeo mostra realmente não estimula autoconsciência e introspecção. É um pressuposto óbvio que o praticante deve manter a atenção antes naquilo que o professor diz e mostra e depois em sua prática pessoal. Se ele (ou ela) está num pequeno palco demonstrando algo, é necessário parar e observar.

Segundo, aulas como a do vídeo propõem-se a ser fisicamente completas e isso pode ser na verdade um desestímulo para o aluno buscar desenvolver sua prática pessoal realmente autoconsciente. Sem dúvida a plenitude física, o detalhismo nos alinhamentos e a fluidez nas seqüências são coisas boas. Resta saber aonde se pretende chegar com a prática e o que, afinal, se entende por prática.

Pode-se dar um desconto às pessoas que se envolvem com tais “formas” de yoga se considerarmos o fato de que algo deve ser feito, algo deve ser ensinado e praticado numa aula. Alunos esperam tais coisas, é claro, e é adequado ensinar corretamente, explicitando cada passo da prática, exatamente como faz a professora do vídeo. Nisto não há problema — desconto dado. O problema é limitar-se a isso.

Qualquer ambição ou desejo podem ser legítimos, até mesmo o desejo de desenvolver músculos e perder barriga praticando asana e vinyasa. Apenas não chame estas coisas de yoga. Ou pelo menos tenha cuidado ao escolher palavras e misturar coisas diametralmente opostas na mesma frase.

*

A imagem que ilustra este post é um exemplo extremo do que este post pretende criticar. A versão original da imagem pode ser encontrada aqui, onde o leitor poderá ver outros exemplos interessantes do que tem sido chamado de yoga, sobretudo nos EUA.

Fotos só amanhã

Já me perguntaram por que não coloco neste blog algumas fotos minhas praticando yoga. Eu aceitaria colocá-las se elas fossem tomadas ao acaso, sem aviso prévio. Eu aceitaria isso ainda mais facilmente se não soubesse que elas seriam tomadas. Em outras palavras, eu as publicaria neste blog e em minhas páginas nas redes sociais se elas realmente me mostrassem praticando yoga.

Quando vejo fotos de pessoas praticando yoga (aparentemente o objetivo é causar a impressão de que estão praticando yoga), o que vejo são pessoas posando para a foto, não praticando yoga. Um asana deve mesmo ser realizado sorrindo, com o rosto voltado para a câmera? Mesmo quando as pessoas não olham para a câmera, o ambiente denuncia a montagem e a artificialidade (por exemplo, nenhum praticante escolhe um estúdio de fotos para praticar yoga). Posar não significa praticar yoga, principalmente quando o objetivo é sair bem numa foto, isto é, executar o asana «corretamente». Obviamente, é possível que mesmo numa foto preparada de uma postura corporal a pessoa esteja praticando e realizando o yoga, mas convenhamos que isso não é muito comum ou fácil.

Por exemplo, compare isto:

…com isto:

A questão nem é diferenciar, a partir de fotos, quem é ou deixa de ser o verdadeiro yogi — no máximo esta discussão interessaria somente às pessoas retratadas. A questão é que fotos são somente fotos e que uma questão realmente útil seria aquela sobre a importância das imagens e da profusão de fotos de asanas em sites, livros, páginas pessoas etc. etc. etc.

Algo bem diferente é um manual de asanas — como os famosos livros de B. K. S. Iyengar e de Dharma Mittra —, mas não me parece que diante de uma câmera a maioria das pessoas tem a mesma intenção que estes dois professores tiveram.

.

link das imagens aqui e aqui