About Christian

professor de yoga, de aikido e de arquitetura.

Uma pedra no caminho

Ao percorrer um caminho qualquer, existem duas formas de se desviar dele: perder o foco do ponto de chegada ou simplesmente mudar a direção do deslocamento. Dito de outro modo, tornar-se cego para o fim ou tornar-se cego para o meio. Pode parecer tautológico (na verdade é), mas eis que os obstáculos à realização dos objetivos do yoga coincidem com essa tautologia: o indivíduo sequer imagina que há um ponto de chegada ou, quando imagina, acredita realmente que qualquer coisa poderá levá-lo lá — o que são dois motivos para continuar fazendo exatamente o que estava sendo feito antes de conhecer o yoga.

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O ditado diz: «todos os caminhos levam a Roma». Examinar os limites desta frase à luz da diversidade atual do yoga me mostrou que não, nem todos os caminhos levam a Roma. Outros levam a Londres ou a Montreal ou a São Paulo. Se você quer ir a Roma, por que tomaria um táxi para, digamos, descer em Moema? Ou, dito de forma mais específica: se você busca a meditação, por que limita sua prática à ginástica?

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A diferença entre você e um ser iluminado é que o ser iluminado já não tem mais dúvidas do que ele é. Você ainda perde tempo se perguntando se você não é alguma outra coisa e acredita facilmente que é aquilo que você vê no espelho, um corpo diariamente lapidado pelos asanas, uma carreira bem sucedida ou uma condição familiar. O mais curioso é que querer ser todas estas coisas não altera em nada sua condição de ser iluminado.

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De revistas e pessoas reais

Anúncio veiculado na Yoga Journal americana: hora de vender meias; tirem as crianças da sala.

Semana passada deparei-me com alguns artigos que lançam críticas à revista Yoga Journal.

O primeiro deles tem o título «Eu odeio a Yoga Journal» e foi publicado no blog Recovering Yogi. Trecho (tradução chulé, perdoem):

(…) Eu abro a revista esperando encontrar inspiração, ou pelo menos evitar aborrecimentos, mas lá pela página três eu já estou aborrecida. Tantos anúncios. Tantos anúncios estúpidos. Não apenas anúncios velados de coisas esotéricas que ajudarão você a obter iluminação mais rápido (como um despertador zen), mas anúncios de comida para animais de estimação (porque mulheres brancas têm gatos) e Subarus (caso as leitoras vivam em Vermont ou no Colorado). Os artigos também podem ser anúncios de como conduzir o relacionamento com seu ex-marido, a nova esposa dele e o gato deles, como ajudar pessoas em outros países a fazer cestas e objetos natalinos, e como não peidar enquanto você faz aquela postura desafiadora que acabou com seus joelhos ano passado. (…)

(…) É como um «bumerangue samsárico» colorido e brilhante que acaba acertando sua nuca. Talvez seja isso: eu tenho que ser sacudida e descer ao nível de consumismo e superficialidade que pulsa em cada página reciclada e impressa com tinta que cheira a tofu. Talvez os ávidos leitores (como se houvesse algo para ler) da Yoga Journal estejam perambulando numa nuvem de cândida vegetariana e não tenham exatamente o equilíbrio da flora necessário para perceber que a prática de yoga deles não vai se desenvolver na mesma proporção do número de meses de assinatura da revista. Parem com isso, senhoritas. A última coisa de que vocês precisam é adicionar à consciência um falso ideal e viver de acordo com ele.

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Satya: o compromisso com a verdade

Oui, Monsieur Duchamp, isto é um mictório, não uma obra de arte.

Mentir dá trabalho. Quem mente é obrigado a gerenciar duas «realidades», uma para si e outra para as outras pessoas (a não ser que o sujeito seja biruta, a realidade de fato é aquela que ele guardará para si). Comparado com alguém que não mente, o mentiroso sempre terá mais trabalho e gastará mais tempo e energia. Mentir é uma espécie de malabarismo.

Satya é o yama que mostra a importância de não criar realidades. O yogin que respeita este yama reconhece a realidade única e vive nela. Trata-se, portanto, de um exercício constante de sinceridade — consigo, com os outros, com o universo —, de permitir que a visão se purifique e se livre de julgamentos e de avaliações. Estas coisas pertencem ao território da mente e o yogin sabiamente permite que elas aconteçam. Satya não o leva ao esforço de neutralizar os julgamentos e avaliações, satya apenas leva o yogin a reconhecer tais coisas como produtos da mente e, portanto, como uma tentativa da mente manipular e recriar a realidade à sua própria vontade.

Satya, portanto, pode ser compreendido também como o esforço de não misturar objetos de naturezas diferentes antes de reconhecê-los como tais. Um exemplo pode tornar esta idéia mais clara.

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Riscos e paradoxos do ensino do yoga

O primeiro e maior risco de ensinar yoga é permitir que o estudante acredite que realmente tem algo a aprender fora de si mesmo, isto é, não deixar claro ao estudante que todas as técnicas e discursos são «o dedo que aponta a lua», não a lua. Obviamente, o risco é muito maior para o estudante do que para o professor, que, no máximo, expõe-se à chance de ser tomado como figura hierárquica importante, como linha principal de transmissão de um conhecimento que, na verdade, não vale a pena ser absorvido se não vem da própria experiência consigo mesmo. Já o estudante expõe-se ao risco do deslumbramento, da repetição psitacídea, da ignorância travestida de erudição.

Quando notamos que a maioria das escolas e dos grupos depende em algum grau desse deslumbramento — e há graus saudáveis, é claro –, compreendemos por que são raros os professores dispostos a declarar a própria inutilidade e a reafirmar valores tão fundamentais como svecchacara (agir conforme a própria vontade).
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Interior e exterior

Uma das lições mais difíceis para mim desde que comecei a estudar o yoga tem sido aquela sobre as relações entre interior e exterior. Embora reconhecido como uma disciplina de investigação interior, um caminho espiritual como o yoga é dotado de dimensões exteriores muito evidentes e importantes.

Independentemente do que se faz — mesmo a meditação profunda ou a prática de samadhi –, o corpo continua a existir e a ter necessidades e propensões. Talvez por isso é que por muito tempo esperei que transformações exteriores pudessem conduzir inevitavelmente a transformações interiores. Se lembrarmos que é ilusória a linha que divide o exterior e o interior na vida de uma pessoa, concluiremos que essas transformações realmente são inevitáveis: alterar o exterior altera necessariamente o interior ou, pelo menos, a percepção que temos do interior — e vice-versa. A estabilidade física para sustentar um asana por alguns minutos reflete-se na mente e na forma como nos percebemos — esteja à vontade para chamar isto de «uma transformação interior», embora eu não me sinta à vontade para usar rótulos por enquanto.

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O yoga a serviço de nada

Praticar para quê?

Considere por um instante o yoga como um «inutensílio» — parafraseando Paulo Leminski. Considere que nada do que você faz numa aula ou em sua prática pessoal serve para alguma coisa e que toda a habilidade conquistada com a prática realmente não o levará para lugar algum.

Pode ser desanimador pensar desta forma, porque é demasiada e naturalmente humano fazer algo para chegar a algum lugar, mas a lição essencial do yoga é que não há lugar algum aonde devemos ir, não há nenhum estado especial que deve ser buscado, não há uma condição especial que deve ser obtida. O que você supostamente tenta realizar já está realizado e o lugar em que você pretende chegar é exatamente o lugar em que você está agora. É por este motivo que muitos mestres comparam o yoga com «descascar a cebola»: trata-se de eliminar camadas e ver o que há por trás delas, não de adicioná-las.

Manter as pernas estendidas e tocar as pontas dos pés com as mãos não passa de uma habilidade física particular. Uma inalação que dura 60 segundos não é nada além de uma inalação que dura 60 segundos. Os efeitos de tais práticas para a mente e para o corpo também não são nada além do que efetivamente são. Estas coisas são capacidades físicas e mentais, que podem ser naturalmente ampliadas e desenvolvidas com as técnicas físicas e mentais do yoga e esse desenvolvimento é bom, mas nem mesmo isso importa, pois yoga não é sair deste ponto e chegar a um outro ponto, mais adiante.

Se admitíssemos que técnicas realmente são fundamentais, teríamos que admitir também que a prática do yoga é essencialmente a prática de técnicas e que realmente há uma meta a atingir exatamente através do uso de técnicas. Admitiríamos também que tais coisas podem ser avaliadas desde fora e que a elas poderíamos atribuir notas e, mais do que isso, que tal conhecimento pode ser realmente transmitido por livros e DVDs.

Yoga é perceber o momento presente, sua condição presente e sua essência, seja ela qual for. Yoga é você com você mesmo, aqui e agora. Nada além disso.

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Yoga, palha e bom-mocismo

Upanishads: sem papas na língua

Digam-me: é só impressão minha ou realmente há no yoga uma tendência muito grande para silenciar diante da ignorância, de heresias e de absurdos evidentes e, ao mesmo tempo, criticar e repudiar veementemente todos aqueles que decidem criticar e repudiar a ignorância, a heresia e o absurdo? É proibido divergir e questionar? Toda crítica precisa ser vista como um ataque pessoal?

Estas perguntas devem-se ao seguinte.

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Três recomendações para iniciantes

1) Yoga é aqui-agora. O que fazemos numa aula regular ou numa prática doméstica sem dúvida é bom, mas se você precisa estender o tapete e realizar asanas para pensar «estou praticando yoga», terá que passar sua vida sobre o tapete para compreender que yoga é uma forma de viver, não uma prática no sentido formal da palavra. Nada o impede de estender o tapete e praticar asanas para fortalecer o corpo, apenas saiba que quando você termina a sessão o corpo e a mente continuam com você — elementos com os quais você terá que lidar todo tempo.

2) Ter saúde significa não se preocupar com saúde. Os benefícios virão e é natural que a possibilidade de obtê-los nos atraia para o yoga. Lembre-se de que os benefícios são sintomas da prática constante, não o objetivo dessa prática. Não existem «asanas para curar dor de cabeça». O fato de algumas técnicas aliviarem dores de cabeça demonstra que o yoga não tem nada de místico, mas também não o torna um remédio ou uma terapia.

3) O objetivo de toda técnica do yoga, por mais palpável que ela seja, é nos ajudar a responder a pergunta «quem sou eu?». É por este motivo que o yoga não pode ser encarado como terapia ou ginástica: não se trata de disciplinar, curar ou modelar o corpo, trata-se tão somente de adquirir consciência sobre tudo aquilo de que somos feitos e também sobre tudo aquilo de que não somos feitos mas com que nos identificamos. De que adianta ter joelhos flexíveis e saber como os ossos se encaixam se a mente não é flexível e não se encaixa no silêncio?

Yoga, ópio do povo

Pisar nos alunos é tããão divertido...

O título traz em si uma afirmação com a qual eu não concordo em absoluto. Yoga não é droga ou alienação. Ocorre, no entanto, que o yoga tem sido colocado a serviço de demandas um pouco estranhas.

É natural praticar o yoga para alongar e fortalecer músculos, para curar dores de cotovelo ou para simplesmente aliviar o stress físico e mental. Não me agrada dizer que estas opções são «erradas», prefiro dizer apenas que elas não têm relação com aquilo que o yoga propõe.

Já dissertei algumas vezes sobre o que o yoga propõe verdadeiramente, por isso acho melhor colocar de forma mais breve e direta desta vez: o objetivo do yoga é unir o homem e Deus. Muito poderia ser dito sobre isso, a começar pelo fato de que essa desunião não existe e nunca existiu. Mas deixe assim por enquanto: o objetivo do yoga é unir o homem e Deus.

Se você quiser tomar isso sob o ponto de vista da prática moderna, de escolas, associações, métodos, sociedades etc., pense que o objetivo do yoga é realizar Deus na Terra. De forma análoga à colocada anteriormente, essa realização já está dada. Deus está presente aqui e agora, em mim, em você, nós é que temos o péssimo hábito de não O ver.

O que se faz hoje com o yoga equivale a apontar uma flecha para a água, em vez de lançá-la ao alvo bem à sua frente. Sob muitos aspectos pode ser divertido lançar flechas na água, mas não espere atingir o alvo dessa forma.